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Resenha: Grandes questões da Ciência, de Harriet Swain

 

Organização: Harriet Swain

Ano da edição: 2010

Páginas: 382

Gênero: Ciência

Aviso: contém Spoilers!

 

Em pouco mais de 400 anos de ciência moderna, a civilização humana passou por mudanças drásticas sem precedentes. Esse período, que compreende uma pequeníssima parte de nossa história, ficou marcado por inúmeras transformações e revoluções de natureza epistemológica, tecnológica, intelectual, cultural, entre muitas outras. 

Toda essa mudança e progresso não se deu ao acaso: foi justamente nesses últimos quatro séculos que a ciência, objeto de estudo desse livro, experimentou o seu mais notável avanço e progresso. Muitos epistemólogos concordam que a ciência, de fato, só teve início com Francis Bacon, Descartes, Kepler, Galileu e outros pensadores e cientistas do início do período renascentista. A razão para isso é simples: foi somente a partir desse período que as atividades científicas passaram a ser marcadas por muitas observações e experiências empíricas dos objetos de estudo. Antes disso, muito por conta da influência de Aristóteles, os filósofos naturais (como eram conhecidos os cientistas) buscavam compreender a natureza sem precisar recorrer à experimentação e observação, que é algo simplesmente impensável para a ciência moderna.

O presente livro não foi escrito com o propósito de fazer um apanhado histórico sobre as principais revoluções científicas, mas apenas apresentar ao leitor algumas das grandes questões ainda em aberto na ciência, ou seja, mistérios que ainda não foram solucionados pelas várias disciplinas em que a ciência se ramifica. 

O livro é dividido em vários capítulos não numerados, no qual o tema de cada capítulo é abordado por duas pessoas diferentes; a primeira abre o capítulo fornecendo um panorama geral sobre o assunto que será tratado, e a segunda, geralmente um especialista na área, aprofunda o conteúdo abordado, mas com uma exposição simples e fácil de se acompanhar. Alguns temas abordados são:

- Deus existe? (Apresentado pelo físico e teólogo John Polkinghorne).

- Como começou o Universo? (Apresentado por ninguém mais que Sir Martin Rees, conhecido cosmólogo britânico e que também foi presidente da Royal Society).

- O que é a consciência? (Apresentado por Susan Blackmore).

- Como evoluiu a linguagem? (Apresentado por Geoffrey Miller).

entre muitos outros.  

O livro possui a grande vantagem de ser incrivelmente acessível para pessoas leigas, mesmo se tratando de temas complicados. Como ponto negativo, certamente precisamos destacar o fato de que o livro já é bem desatualizado com relação a várias descobertas recentes, afinal, esse livro foi publicado ainda no início dos anos 2000, e muita coisa nova surgiu de lá pra cá.

Outro ponto negativo do livro (e dessa vez é uma crítica pessoal mesmo), é que a organizadora da obra, Harriet Swain, aparentemente elaborou esse livro como sendo uma espécie de resposta ou contramedida para amenizar a crescente desavença entre ciência e religião. Prova disso são os inúmeros pesquisadores cristãos que contribuíram em alguns capítulos, a começar pelo capítulo de abertura ("Deus existe?"), que foi escrito por John Polkinghorne, que foi um físico e sacerdote anglicano. Ciência e religião nunca serão compatíveis, pois ambas partem de princípios e considerações diferentes acerca da realidade física e no modo como a encaramos. 

Por vezes, chega até a ser contraditório um livro levar o título "ciência" na capa e causar no leitor um certo descontentamento e animosidade pela ciência. Na abertura do capítulo "Como acabará o mundo?", o autor Aisling Irwin afirma: "O fim pode vir como resultado de intromissões malfeitas e inúteis dos físicos. Perdendo tempo com seus aceleradores de partículas, no intuito de compreender questões abstratas do universo, esses cientistas poderiam desencadear uma reação em cadeia que destruiria o mundo" (p. 340). Esse é o tipo de comentário que se vê em blogs de conspiracionistas, e não em livros de ciência! Os aceleradores de partículas têm revolucionado o nosso conhecimento sobre a constituição elementar da matéria nas suas mais diminutas escalas, e isso abre todo um leque de possibilidades sobre o que pode ser feito em vários setores da indústria, desde a produção de novos materiais até a produção de fármacos. Afirmar que o trabalho desenvolvido nessa tecnologia de ponta é inútil serve apenas para mostrar a total falta de compreensão do assunto por parte de quem faz esse tipo de comentário. 

Apesar disso, considero que a leitura do livro deve ser apreciada e encorajada, mesmo que a obra esteja desatualizada, pois como diria o grande Millor Fernandes: "Em ciência, leia sempre os livros mais novos. Em literatura, leia sempre os mais velhos"

Boa leitura!


 

 

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