Pular para o conteúdo principal

Qual o máximo de vezes que podemos dobrar uma folha de papel?



O problema de dobrar uma folha de papel n vezes já é bem conhecido entre os matemáticos. O experimento consistente simplesmente em utilizar uma folha em branco (de preferência uma folha "A4"), e ir unindo seus vértices, de modo que cada dobra reduza a área da folha pela metade. É evidente que, a cada novo movimento, a folha fica cada vez menor e, consequentemente, sua espessura vai aumentando cada vez mais. Você pode tentar reproduzir essa experiência em casa, porém, antes de prosseguir, tente responder: quantas vezes você acha que pode dobrar a folha? Se você executar essa experiência, verá que só é possível dobrar a folha s7 ou 8 vezes, no máximo. 

Mesmo que seja extremamente difícil dobrar o papel 8 vezes, não é impossível ir além disso. Em 2002, a norte-americana Britney Gallivan conseguiu dobrar uma folha 12 vezes, estabelecendo um recorde mundial. Se não fosse o bastante, ela ainda deduziu uma fórmula que nos permite determinar o número de dobras que é possível fazer em um material, levando em conta sua espessura, composição etc. A fórmula de Gallivan é: 

onde L representa o comprimento do material, t representa a espessura inicial e n é o número de dobras. Entretanto, iremos deduzir uma expressão bem mais simples para mostrar aquilo que é o propósito deste texto: mostrar o quão espantoso é o crescimento exponencial. 

Para determinar isso, é necessário que o leitor perceba que, ao dobrar a folha uma vez (n=1), a espessura "e" da folha aumenta duas vezes de tamanho. Se você dobrar a folha novamente (n=2), a espessura da folha passa a ser 4 vezes o valor inicial. Se você dobrar uma terceira vez, a espessura passa a ser 8 vezes maior, e assim por diante. Diante disto, é evidente que temos um caso de um crescimento exponencial simples, que pode ser representado por e=2^n , onde "e" é a espessura e n é o número de dobras do papel. No entanto, para sabermos qual o tamanho do papel após um número n de dobras, precisamos multiplicar essa expressão pela espessura inicial do papel, e uma folha "A4" típica tem uma espessura média de 0,1 mm. Sendo assim, obtemos nossa expressão matemática para calcular o tamanho final do papel:

Essa é, de fato, uma fórmula bem simples, mas os resultados que podemos obter com ela são difíceis de assimilar, e nos mostram o quão rápido se dá um crescimento exponencial (ou decrescimento). Pois bem, vamos pôr a "mão na massa" e ver alguns resultados impressionantes (e inacreditáveis). 

1- Com 17 dobras, a espessura do papel ficará com cerca de 1,8 metros, praticamente a altura média de um homem adulto;

2- Com apenas 36 dobras, a espessura chegaria aos 400 km, que é praticamente a distância em que a ISS (Estação Espacial Internacional) se encontra da Terra. 

3- Com apenas 45 dobras, a espessura atinge um valor de cerca de 385000 km, que é a distância entre a Terra e a Lua;

4- Achou esse resultado impressionante? Bem...saiba que, com apenas 107 dobras, o papel ficaria com uma espessura equivalente ao raio do Universo observável, que é de cerca de 92 bilhões de anos-luz!

Esse realmente é um resultado incrivelmente impressionante, mas antes que você "quebre" a cabeça com isso, é importante frisar que é óbvio que esse experimento é fisicamente impossível de ser executado. Sem entrar em discussão nas questões óbvias, observe que a medida que o papel é dobrado, sua base (a área de um retângulo é o produto da base pela altura) vai diminuindo cada vez mais, de modo que quanto maior fosse a espessura, menor seria a largura da base, e obviamente existe um limite pra tudo isso. 

Como mencionado acima, esse "experimento mental" é um ótimo exercício que nos mostra o quão rapidamente ocorrem as mudanças de natureza exponencial, e o fato é que muitos fenômenos físicos obedecem a algumas dessas regras, como é o caso do decaimento radioativo, por exemplo. A análise físico-matemática das coisas nos mostra realmente como é a natureza, e no quão maravilhoso e complexo é o seu comportamento. 


Links Úteis

- https://www.guinnessworldrecords.com/world-records/494571-most-times-to-fold-a-piece-of-paper 

- https://universoracionalista.org/um-papel-dobrado-ao-meio-107-vezes-fica-maior-do-que-o-universo/

- https://www.youtube.com/watch?v=x24Ns0Q7dh8

 








Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O lado oculto da Lua

  Você muito provavelmente já deve ter ouvido falar no "lado oculto da Lua", ou, mais especificamente, no "lado escuro da Lua". A cultura popularizou esse termo através de filmes, histórias, canções (como o famoso álbum de 1973 de Pink Floyd), no entanto, não é correto falar em lado escuro da Lua, pois ambos os lados são iluminados pela luz do Sol. O que acontece, de fato, é que a Lua possui um lado que não conseguimos ver; repare que, ao longo do mês, sempre vemos a Lua com um mesmo aspecto visual, e isso pode ser melhor visualizado na figura abaixo. A foto da esquerda é a face da Lua que podemos observar. Perceba que a principal diferença entre ambas as faces é o fato de que o lado oculto (foto da direita) possui uma quantidade bem menor das imensas manchas escuras que o lado visível possui, que nada mais são do que registros do passado geologicamente ativo do nosso satélite. No entanto, a dúvida que fica é: se a Lua gira em torno de si mesma, porque vemos apenas ...

Encontrando a equação da reta tangente à uma curva num ponto $x_0$

 Uma aplicação muito interessante sobre derivadas nos permite encontrar, de forma bastante simples, a equação da reta tangente à uma curva num dado ponto $(x_0,y_0)$. Neste texto, irei mostrar de forma muito simples como podemos encontrar a equação tangente à uma curva qualquer num certo ponto $x_0$. Observe o gráfico abaixo.                                             Fonte: respondeai.com.br/calculo O gráfico acima apresenta uma curva $f(x)$ e uma reta que tangencia essa curva no ponto $P$, que possui coordenadas $(x_0,y_0)$. Do cálculo diferencial e integral, sabemos que a inclinação da reta tangente com relação ao eixo $x$ representa a derivada de $f(x)$ com relação a variável $x$. A inclinação $m(x_0)$ da reta pode ser calculada por $$m = \frac{∆y}{∆x}=\frac{y-y_0}{x-x_0}$$ e, como a inclinação representa justamente a derivada, concluímos que $m(x_0) = f'(x_0)$ no pont...

Função par e função ímpar

As funções matemáticas podem apresentar uma variedade muito grande de propriedades. Uma propriedade que é muito interessante é chamada de "paridade", que classifica as funções como sendo par ou ímpar. A paridade de uma função nos ajuda a determinar como será o comportamento gráfico dessa função para determinados valores de $x$, pois funções pares exibem uma simetria com relação ao eixo $y$, enquanto funções ímpares possuem uma simetria com relação à origem do sistema cartesiano. Vejamos isso em mais detalhes nos tópicos abaixo. Função par Uma função $f(x)$ é dita "par" se, e somente se, $f(x) = f(-x)$ para todo $x$ referente ao domínio da função. Ou seja, se substituirmos $x$ em $f(x)$ por $-x$, obtemos o mesmo resultado ou imagem, daí resulta o fato da simetria. Perceba, na imagem acima, que as áreas embaixo das retas (lado esquerdo e direito) são exatamente iguais; é como se a figura da esquerda fosse a parte refletida da figura da direita (e vice-versa). Em cálcu...